3.º Gene do ADN da Distribuição: Resiliência
O 3.º Gene do ADN da Distribuição – Resiliência – explicado por José António Rousseau.

Hipersuper
Diogo Barbot: “A inovação é uma prática contínua que nos diferencia no mercado”
Fruit Attraction 2025 reforça crescimento e liderança com nova organização de setores e pavilhões
IKEA lança em Portugal plataforma de compra e venda em segunda mão
Arena Shopping cria um jardim da Páscoa com várias atividades
Nestlé Lindahls Protein lança “Good Move” para inspirar estilo de vida mais ativo
Cerveja Sagres reforça presença em eventos de música em Portugal
CVRTM dá a provar vinhos de Trás-os-Montes em Vilamoura
Parceria Spring GDS e MailAmericas visa e-commerce entre Europa e América Latina
Hipersuper promove debate sobre inovação no packaging do vinho na Empack e Logistics & Automation Porto
UBBO Shopping Resort dinamiza atividades de Páscoa
Resiliência é uma palavra ou qualidade verificável em qualquer actividade humana ou social, porém, particularmente na actividade comercial, é gratificante observar que as propriedades do elástico e do silicone se aplicam, e bem, às empresas comerciais.
A noção de resiliência foi criada pela Física, que a utiliza para caracterizar a propriedade através da qual a energia armazenada num corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica, isto é, a capacidade concreta de conseguir voltar ao seu estado inicial e natural de excelência, superando uma situação critica.
As ciências sociais tomaram este conceito emprestado definindo resiliência como a capacidade, de um indivíduo ou de uma organização, para lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas sem entrar em crise e conseguindo ultrapassá-las.
A resiliência é, pois, uma combinação de factores que propiciam ao ser humano e às organizações, condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.
Esta verdadeira “arte de transformar toda a energia de um problema numa solução criativa” (Grapeia 2004) consiste, no fundo, no equilíbrio entre a tensão e a capacidade de resistir e atingir um nível mais elevado de consciência, que aporta mudanças comportamentais para lidar e vencer os obstáculos do dia a dia.
Tal como no ser humano, também nas empresas, o equilíbrio é um factor determinante do seu sucesso e, como o equilíbrio funciona tal qual a estrutura de um prédio, se a pressão for maior que a resistência, aparecerão fendas representadas por doenças psicossomáticas manifestadas nos indivíduos ou, por crises económicas e dificuldades comerciais, evidenciadas na gestão e resultados das empresas.
A empresa resiliente desenvolve a capacidade de recuperar e se moldar, novamente, a cada obstáculo e a cada desafio, de adquirir competências de acção que lhes permitem adaptar-se melhor a uma realidade económica imprevisível e a agir de forma adequada e rápida, resolvendo os problemas que lhe são colocados.
Numa empresa comercial, a resiliência é a capacidade de promover as mudanças necessárias para atingir os seus objectivos, de manter as competências e habilidades, mesmo diante das adversidades, de antecipar crises, prever adversidades e saber preparar-se o melhor possível para elas.
A empresa comercial resiliente não espera a crise acontecer para actuar. Ao invés tenta antecipar-se às mudanças, porque está sempre ligada a tudo o que acontece no mercado.
Seria até desejável que as empresas comerciais fossem protagonistas e agentes das mudanças no mercado, tornando-se mais flexíveis, leves e consistentes, conseguindo crescer, mesmo em ambiente de mudança e adversidade e antecipando os próprios acontecimentos, conseguindo deste modo contribuir para transformar a realidade.
É um facto visível que o retalho integrado consegue ser mais resiliente que o retalho independente, porque este, atavicamente, resiste demasiado à mudança. Os comerciantes independentes necessitavam de mudar a pele e adquirir sangue novo, de ter uma nova visão e de adoptar novos processos, de lançar novas marcas ou insígnias. A franquia, os centros comerciais e as diferentes formas de comércio associado actualmente existentes são algumas das soluções em alternativa.
Mas o comércio tradicional independente padece de um pecado original, de uma marca genética que lhe traça inexorável o seu destino: os ciclos de vida da loja e do comerciante, seu proprietário, são iguais e estão sobrepostos. Quando o comerciante é jovem a loja ainda que pequena ou mal trabalhada, ainda vai funcionando bem. Mas quando o comerciante começa a envelhecer a loja também envelhece e vai ficando parada no tempo. E, quando o comerciante se reforma ou morre, a loja também fecha as portas e sai do mercado.
Ouso mesmo afirmar que a velha teoria da destruição criativa de Shumpeter deveria ser um imperativo categórico para o comércio tradicional independente, porque para este comércio um mero processo resiliente de modernização talvez já não seja suficiente. Será necessário uma verdadeira transformação, uma efectiva mutação. Mas essa é outra história que não cabe aqui.A resiliência das empresas comerciais verifica-se sempre que estas conseguem enfrentar com sucesso os Adamastores das pressões e crises económicas, das constantes alterações de mercado e das inesperadas mudanças de hábitos de consumo, no fundo, sempre que as empresas conseguem vencer o grande desafio do tempo.
Para tal, as empresas comerciais necessitam de possuir algumas qualidades, sem as quais não poderão ser resilientes, como por exemplo, a energia da flexibilidade, a força da resistência, o espírito de sacrifício e a capacidade de adaptação permanente.
Um exemplo destas capacidades encontra-se na Jerónimo Martins que, ao longo dos seus mais de cem anos de existência, tem conseguido ultrapassar todas as profundas mudanças entretanto ocorridas. A última destas situações ocorreu na mudança deste século período em que a empresa acumulou prejuízos, teve uma queda brutal nas vendas e perdeu valor accionista. No entanto, com coragem e atitude, desinvestindo em negócios não fundamentais, reestruturando a organização e a liderança, redefinindo estratégias e reposicionando formatos conseguiu mais uma vez dar a volta e ficar, como agora novamente está, por cima.
Ainda em Portugal, na área do comércio independente, também conseguimos encontrar bons exemplos de resiliência comercial, embora a maioria dos casos se encontrem mais na área do comércio especializado não alimentar e menos no comércio generalista alimentar. Parece poder concluir-se que o comércio especializado manifesta melhores condições de resiliência para enfrentar e se adaptar às mudanças verificadas ao longo do tempo, variável esta sem a qual não existe resiliência.
Como exemplos vivos e actuais de resiliência, podemos referir a Camisaria Moderna, em Lisboa, datada de 1934 que possui fabrico próprio e se diferencia pela oferta de tamanhos grandes; a Casa da Cera, em Guimarães, fundada em 1800 cujo negócio assenta no pagamento de promessas religiosas feitas pelos seus clientes, que também produz os seus próprios produtos e hoje se abre também ao turismo; a Casa dos Parafusos, em Lisboa, datada do inicio do século XX, identificada pela sua fachada original em azulejo e, no seu início, também ligada a uma fábrica; a Cutelaria Polycarpo, em Lisboa, datada de 1822 e baseada na actividade do seu primeiro proprietário o Mestre de cutelaria Polycarpo; a loja de atoalhados e produtos de casa, Paris em Lisboa, no Chiado, inaugurada em 1888; a retrosaria Bijou, na baixa de Lisboa desde 1915; a Luvaria Ulisses que desde 1925, em apenas 4m2, só vende luvas que ela própria fabrica; várias livrarias, tais como, a Bertrand de 1773, a Férin de 1840, a Lello do Porto de 1906 e o alfarrabista Moreira da Costa aberta em 1902. No segmento alimentar, referirei apenas como exemplo de resiliência, a Charcutaria do Rossio Manuel Tavares datada de 1860 e a Mercearia Liberdade, cuja data de abertura se perdeu no tempo, pois a atribuição do seu alvará foi meramente verbal e que hoje oferece basicamente artesanato português.
Em todos estes casos se verificaram três elementos comuns ao longo de mais de um século: a natureza ultra-especializada da actividade, a transmissão do negócio através da família e a ligação à actividade industrial em termos de integração de fileira.
José António Rousseau, Consultor e professor no IADE/IPAM, www.rousseau.com.pt